“Caro sr. Akin, quero que o senhor imagine…”

Caro Todd Akin,

esta noite vou lhe escrever sobre estupro. São 2 horas da manhã aqui, na República Democrática do Congo, e eu não consigo dormir. Estou na City of Joy, em Bukavu, para prestar serviços, dar suporte e trabalhar com centenas, milhares de mulheres que foram estupradas, violentadas e torturadas por essa guerra incessante devido aos espermas postos em seus corpos.

Estou no Congo, mas eu poderia escrever isso de qualquer lugar dos Estados Unidos, da África do Sul, da Grã-Bretanha, do Egito, da Índia, das Filipinas, da maioria dos campi universitários na América. Eu poderia estar escrevendo de qualquer cidade, vilarejo ou aldeia, onde mais de meio bilhão de mulheres no planeta são estupradas durante a vida delas.

Senhor Akin, suas palavras me deixaram acordada.

Como uma sobrevivente de estupro, estou atordoada com sua recente declaração, dada como engano, em que o senhor disse que mulheres que sofreram estupro legítimo não engravidam e com o fato de que o senhor estava falando sem uma preparação prévia.

Esclarecendo: o senhor não fez simplesmente um comentário leviano. O senhor fez um comentário ignorante muito específico, que indicou, claramente, sua falta de consciência sobre o que significa ser estuprada. E não foi somente uma afirmação informal, mas, sim, feita com a intenção de legislar a experiência de mulheres que foram estupradas. Talvez seja mais aterrorizador: foi uma janela para a psique do Partido dos Republicanos.

O senhor usou a expressão estupro “legítimo”, como se existisse um estupro “ilegítimo”. Deixe-me tentar explicar-lhe o que isso faz com as mentes, corações e almas de milhões de mulheres desse planeta que foram estupradas. É uma forma de ser estuprada novamente. A suposição latente de sua afirmação é que não se pode confiar nas mulheres e nas experiências delas; que o entendimento que elas têm sobre estupro deve ser qualificado por uma autoridade maior, mais sábia, que deslegitima, menospreza, enfraquece e diminui o horror, a invasão e a profanação que elas viveram. Isso as faz sentir tão solitárias e impotentes como no momento do estupro.

Quando o senhor, Paul Ryan e 225 colegas patrocinadores brincam com palavras sobre estupro, sugerindo que somente os estupros “forçados” devem ser considerados sérios, como se todos os estupros não fossem forçados, isso traz à tona uma enchente de memórias sobre como os estupradores brincaram conosco enquanto estávamos sendo estupradas, nos intimidando, nos ameaçando e nos emudecendo. Seu jogo com palavras, como “forçado” e “legítimo”, brinca com nossas almas que foram despedaçadas por pênis indesejados empurrados para dentro de nós, rasgando nossa carne, nossa vagina, nossa consciência, nossa confiança, nosso orgulho, nosso futuro.

Clara Lieu

Clara Lieu

Agora o senhor quer dizer que se enganou quando disse que um estupro legítimo não nos engravidaria. O senhor honestamente acredita que o esperma proveniente de um estupro seja diferente do esperma proveniente de uma relação consensual, que um processo religioso misterioso ocorre, e que o esperma proveniente do estupro se autodestrói devido ao seu conteúdo malévolo? Ou o senhor está sugerindo que as mulheres e seus corpos são, de alguma forma, responsáveis por rejeitar o esperma proveniente do estupro legítimo, mais uma vez colocando o ônus em nós? Dessa forma, fica parecendo que o senhor disse que engravidar depois de um estupro indicaria que não foi um estupro “legítimo”.

Aqui está o que eu quero que o senhor faça: quero que feche os olhos e imagine que está em sua cama ou contra uma parede ou preso em um pequeno espaço sufocante. Imagine sendo amarrado lá por um amigo agressivo, indiferente, insano ou com um parente arrancando suas roupas e penetrando seu corpo – a parte mais pessoal, sagrada e íntima do seu corpo –, forçando o corpo dele contra o seu de forma violenta e odiosa, para que o senhor seja rasgado. Então, imagine que o esperma do estranho está entrando no senhor, preenchendo-o, e o senhor não consegue se livrar daquilo. Algo está crescendo dentro do senhor. Imagine que o senhor não tem ideia de como aquela vida se consistirá, concebida espiritualmente no ódio, sem saber dos antecedentes mentais e de saúde do estuprador.

Então, imagine que uma pessoa que nunca foi estuprada apareça e lhe diga que o senhor não tem outra alternativa, a não ser manter o fruto do estupro crescendo dentro do senhor, contra sua vontade e, quando ele tiver nascido, com o rosto de seu estuprador, o rosto da pessoa que essencialmente destruiu seu ser, o senhor terá de olhar para aquele rosto para o resto de sua vida, e será julgado duramente se não conseguir amá-lo.

Não sei se o senhor consegue imaginar alguma situação dessas (ser líder requer esse tipo de compaixão), mas se está disposto a mergulhar a fundo nessa questão, entenderá rapidamente que NINGUÉM PODE FAZER A ESCOLHA sobre ter ou não o bebê a não ser a pessoa que o carrega.

Passei muito tempo com mães de crianças concebidas por estupro. Eu vi a tortura delas lutando contra o próprio ódio e a própria raiva, tentando não projetar aquilo nas crianças.

Estou pedindo para o senhor e o GOP saírem do meu corpo, da minha vagina, do meu útero, para saírem de todos os nossos corpos. Essas decisões não cabem aos senhores. Essas palavras não cabem aos senhores.

Por que os senhores não gastam seu tempo acabando com o estupro em vez de redefini-lo? Gastem sua energia indo atrás dos culpados que destroem tão facilmente as mulheres em vez de analisarem a linguagem manipulativa que minimiza a destruição que eles nos causam.

E, a propósito, o senhor acabou de dar a milhões de mulheres uma ótima razão para que o senhor nunca mais seja eleito, e um motivo insano enorme para nos levantarmos.

#RazõesParaNosLevantarmos

Eve Ensler

Bukavu, Congo

Texto traduzido por iakemi e revisado por Aline Naomi Sassaki.

oOo

O texto original pode ser encontrado aqui: http://segue.se/B9q

“Recuperação, Reabilitação e a Conspiração da Esperança”

Texto traduzido e publicado com autorização da autora.

Gostaria de agradecer pela chance de falar com vocês hoje. Recentemente, tive a oportunidade de ir à Austrália fazer um discurso. O tema desta conferência era: “Existe uma pessoa aqui”. Gostei muito deste tema: uma afirmação tão simples e ao mesmo tempo tão profunda. Na verdade, a parte fácil é saber que há uma pessoa aqui. A parte difícil é sempre ouvi-la e reverenciá-la. De qualquer forma, eu gostaria de compartilhar este ensaio com vocês.

A conferência aconteceu na cidade subtropical de Brisbaine, onde a temperatura não fica muito abaixo dos 27⁰C. É um tanto diferente do lugar em que vivemos. Diferentemente dos trópicos, nós temos quatro estações bem distintas, indo do frio intenso de um inverno nevoso para a confusa estação do desabrochar de cores que chamamos de primavera, depois para os calorosos dias de verão até chegar ao espetacular desabrochar do outono, quando todas as folhas das árvores explodem em brilhantes tons de amarelo, laranja e vermelho e, então, caem no chão deixando as árvores nuas, desfolhadas, sem nada.

Os ciclos das estações sempre me trazem uma lição: lembro sempre que o crescimento acontece em um contexto e, para que venha à tona, o meio deve mudar para que ele aconteça. Em uma primavera, depois de um longo e congelante inverno, escrevi isso:

“É primavera e a esperança está em todos os lugares. É primavera, e parece que todos os seres vivos estão vindo à tona, ainda molhados e novos e frágeis e decididos a fincar raízes e crescer.”

Lembro de uma rosa rugosa que vi florescendo em uma praia perto de casa neste último verão. A vida dessa rosa rugosa é frágil e fácil de ser machucada. Amo vê-la. Ao alvorecer, ela se balança lentamente em direção ao sol. A rosa rugosa é fototrópica. Ela se inclina em direção à luz enquanto suas raízes alcançam a escuridão da Terra. Na verdade, foi na escuridão que sua nova vida começou.

Mesmo em janeiro e fevereiro, quando os ventos gelados atingiam aquelas dunas, os dias eram mais curtos e a luz do sol não aquecia, embaixo da terra, essa nova vida estava à espera. Ninguém podia vê-la, ninguém estava lá para testemunhá-la, apesar disso, esta futura rosa rugosa esperou. Ela esperou naquela escuridão gelada até a areia começar a descongelar. Esperou pela chuva para se soltar pela terra. E, então, muito devagar, começou a se mexer. Começou a crescer movendo um grão de areia por vez. A princípio, ela não cresceu direto em direção à luz. Não. Primeiro, ela cresceu para baixo, alcançando, estendendo, apalpando, às cegas, através da areia movediça para encontrar um lugar apropriado. Um lugar para criar raízes. Um bom solo para se firmar e se desenvolver. Um solo aconchegante que a abrigasse mesmo em caso de chuvas fortes e ventania. E, então, tendo se enraizado dessa maneira, a rosa rugosa começou sua jornada em direção à luz. Passando pela escuridão, essa rosa rugosa aflorou pequenina e encantadora e insistente e corajosa. De ramos fracos e trêmulos, essa coisinha se transformou em uma nova vida.

Essa rosa rugosa nos ensina muito sobre esperança. Ela nos ensina que a esperança surge da escuridão. Ela nos ensina que a esperança pode crescer em ambientes acolhedores, em que as pessoas podem criar raízes e se sentir seguras. E hoje estou aqui para celebrar a esperança que a rosa rugosa simboliza.

Acredito que o espírito da esperança nos uniu aqui hoje. Nós somos trabalhadores e administradores, políticos e membros de família, usuários do serviço público e profissionais de saúde mental. Há quinze anos, você nunca nos encontraria juntos em uma mesma sala! Na verdade, há dez anos, dificilmente, falaríamos uns com os outros! Mas aqui estamos reunidos, assistentes sociais sentados próximos de membros de família, que estão sentados próximos de políticos, que estão sentados próximos dos coordenadores de assistência social, que estão sentados próximos de acadêmicos, que estão sentados próximos de usuários de serviços públicos… O que está acontecendo aqui? As velhas regras estão sendo quebradas? As bases da velha ordem estão sendo sacudidas? HÁ UMA CONSPIRAÇÃO ACONTECENDO?

Eu amo a palavra “conspiração”, que vem do latim “conspirare” e significa respirar em conjunto. Qual é o propósito de estarmos respirando juntos hoje?

É o espírito da esperança. Tanto individual como coletivamente, nós nos recusamos a sucumbir perante as imagens de desespero que, normalmente, são associadas às doenças mentais. Somos a conspiração da esperança e estamos lutando contra uma forte corrente de opressão que, por séculos, tem sido o legado de pessoas que, como nós, foram tachadas de doentes mentais. Nos recusamos a reduzir o ser humano à sua doença. Reconhecemos que em cada um de nós existe uma pessoa e que, como pessoas, compartilhamos um respeito mútuo com aqueles que foram diagnosticados com doenças mentais. Compartilhamos a certeza de que pessoas rotuladas como doentes mentais são, acima de tudo, seres humanos. Nossas vidas são preciosas e de valor infinito.

E enquanto essa conferência avança, aprenderemos que as pessoas com desordens psiquiátricas podem se tornar experts em cuidar de si próprias, podem recuperar o controle sobre suas vidas e podem ser responsáveis por suas próprias jornadas de recuperação. Finalmente, como a rosa rugosa nos ensina, aprenderemos que o ambiente ao nosso redor deve mudar se quisermos nos tornar uma pessoa inteira que, como uma pequena semente, está esperando para surgir em cada um de nós.

E enquanto essa conferência avança, aprenderemos que as pessoas com desordens psiquiátricas podem se tornar experts em cuidar de si próprias, podem recuperar o controle sobre suas vidas e podem ser responsáveis por suas próprias jornadas de recuperação. Finalmente, como a rosa rugosa nos ensina, aprenderemos que o ambiente ao nosso redor deve mudar se quisermos nos tornar uma pessoa inteira que, como uma pequena semente, está esperando para surgir em cada um de nós.

Se plantamos uma semente no deserto e ela não cresce, perguntamos: “O que há de errado com essa planta?”. Não. A conspiração verdadeira consiste em ver o ambiente ao redor da semente e perguntar: “O que devemos mudar neste ambiente para que a semente possa crescer?”. A conspiração real de que participamos hoje diz para pararmos de dizer o que está errado com os sobreviventes psiquiátricos e começarmos a perguntar: “Como criamos um ambiente humano, cheio de esperança e relacionamentos em que as pessoas possam crescer?”.

Mas antes de falarmos mais sobre esperança e humanidade, quero compartilhar como é ser diagnosticada com doença mental bem cedo e perder toda a esperança. Quero falar para vocês sobre o inverno negro de angústia e apatia, quando desistimos de ter esperança e só sentamos para fumar e beber café.

Para aqueles de nós que foram diagnosticados com doenças mentais e que viveram em programas de Saúde Mental e instituições, às vezes, inúteis, esperança não é somente um bom eufemismo. É questão de vida ou morte.

Nós sabemos disso porque, como a rosa rugosa, conhecemos um longo e frio inverno em que toda a esperança parece ter sido tirada de nós. Para a maioria de nós, começou no início da nossa juventude. Primeiro, não podíamos nomeá-la. Ela veio como um ladrão na noite e roubou nossa juventude, nossos sonhos, nossas aspirações e nossos futuros. Chegou como um terrível pesadelo do qual não podíamos acordar. E então, quando mais precisávamos estar perto de quem amávamos, fomos levados para lugares bem longe deles. Com 14 ou 17 ou 22 anos, nos disseram que tínhamos uma doença incurável. Disseram-nos para tomarmos uma medicação que nos fazia falar enrolado e ficar trêmulos, que roubava a energia dos nossos corpos jovens e que nos fazia andar duros como zumbis. Nos falaram que se tomássemos esses medicamentos pelo resto da vida, talvez poderíamos ter uma vida parecida com a normal. Eles continuaram a nos falar que essas medicações eram boas para nós, mas podíamos sentir a alta dose de neurolépticos nos transformando em vasos vazios. Nós nos sentíamos como almas sem vontade ou mortos-vivos, conforme o entorpecimento e a apatia induzidos pela droga assumiam o controle. Em grandes dosagens, os neurolépticos diminuem radicalmente nossa personalidade e nosso senso de ser único.

Nos primeiros ventos do inverno que nos atingiram, nós puxamos o cobertor e nos enrolamos bem nele, mas não conseguimos dormir. Durante aquelas primeiras noites no hospital, permanecemos acordados. Sabe, à noite, as luzes das casas da comunidade brilham através das janelas do hospital psiquiátrico. Ainda há vida lá, enquanto a nossa desmorona ao nosso redor. Aquelas luzes parecem muito, muito distantes. O povo zulu tem uma frase para a nossa palavra “distante”. Na língua do povo zulu, “distante” significa: “Lá, onde as pessoas gritam: ‘Ó, mãe, estou perdido’” (Buber 1958, p.18). Na realidade, isso é de longe o sentimento no hospital para doentes mentais. O caminho de volta para casa não era claro. E enquanto estávamos lá, deitados na escuridão, estávamos com medo e não conseguíamos imaginar como sair daquele lugar terrível. E quando ninguém estava olhando, chorávamos naquela solidão toda.

Mas, na manhã seguinte, nós nos enfurecíamos. Nos enfurecíamos contra as profecias sombrias que faziam da nossa vida. Eles estavam errados! Eles estavam errados! Nós não somos loucos. Não somos iguais àqueles que ficaram em um hospital por muito tempo. Nós somos diferentes. Voltaremos para casa, e tudo será como era antes. É só um sonho ruim. É só um contratempo.

A tempo, deixamos o hospital. Esperamos na escada com as malas nas mãos. Tínhamos tanta coragem – nosso otimismo juvenil tremulava como bandeiras em um desfile de boas-vindas. Nós conseguiríamos. Nunca voltaríamos para o hospital de novo.

Alguns conseguiram. Mas a maioria de nós voltou para casa e percebeu que nunca mais seria a mesma coisa. Os nossos amigos estavam com medo de nós ou estavam estranhamente ausentes. Eles eram demasiadamente cuidadosos quando estavam perto de nós. Nossas famílias estavam consternadas e arrasadas pela culpa. Eles não dormiam e seus olhos estavam molhados de lágrimas. E nós, nós estávamos exaustos. Mas estávamos dispostos a tentar. E eu juro que, com toda a coragem reunida, tentamos retornar ao trabalho e à escola, tentamos juntar os pedaços e rezamos para termos força e perseverança para continuarmos tentando. Mas parece que Deus escutou com ouvidos surdos as nossas preces. A terrível aflição voltou e nossas vidas foram mais uma vez despedaçadas.

E agora nosso inverno se tornou gélido. Algo morreu em nós.

Alguma coisa lá dentro começou a se quebrar. Aos poucos, as mensagens desesperançadas e o estigma que permeavam nossos tratamentos começaram a ser entendidos. Aos poucos, começamos a acreditar no que estava sendo dito sobre nós. Parecia que o sistema tentava destruir o nosso espírito e estava ainda mais interessado em obter, até mesmo nos coagindo, a nossa conformidade do que escutar a nós e as nossas necessidades.

Estávamos suportando aquela transformação desumana de ser uma pessoa para nos transformarmos em uma doença: “uma esquizofrênica”, “uma múltipla personalidade”, “uma bipolar” (Deegan 1992).

A nossa personalidade e senso de ser uma pessoa continuou a atrofiar, enquanto éramos treinados por profissionais para dizer “sou uma esquizofrênica”, “sou uma bipolar”, “sou uma múltipla personalidade”. E a cada vez que repetíamos essa ladainha desumana, o nosso senso de ser uma pessoa diminuía, enquanto “a doença” ganhava força e se transformava em uma entidade própria, em uma Doença, e fomos ensinados que éramos menos poderosos que Ela.

Os profissionais dizem que estamos fazendo progressos porque aprendemos a nos equiparar à nossa doença. Eles falaram que era um progresso aprendermos a falar: “Eu sou um esquizofrênico”. Mas não sentimos nenhum progresso nisso. Sentimos como se o tempo tivesse parado. O ser que nós éramos parecia estar cada vez mais distante, como um sonho que pertencia a uma outra pessoa. O futuro parecia sombrio e vazio e prometia nada menos do que mais sofrimento. E o presente se tornou uma sucessão interminável de momentos marcados pelo próximo cigarro e o cigarro seguinte.

Muito do que sofremos foi negligenciado. O contexto da nossa vida foi, em grande parte, ignorado. Os profissionais que trabalharam com a gente estudaram a ciência dos objetos físicos, não a dos humanos. Eles não entenderam o que o neurologista Oliver Sacks (1970) tão claramente articulou: “Para restabelecer o ser humano – o sofrimento, a aflição, a luta, o conteúdo humano, devemos aprofundar o caso para uma narrativa ou conto, somente assim temos um ‘quem’, um ‘o quê’, uma pessoa real, um paciente, em relação à doença – em relação ao físico… o estudo da doença e da identidade não podem ser separados… (histórias) nos trazem a intersecção do mecanismo e da vida para a relação dos processos fisiológicos com a biografia” (p. viii). Mas ninguém perguntou sobre as nossas histórias. Em vez disso, pensaram que as nossas biografias, como esquizofrênicos, tinham sido escritas um século atrás por Kraeplin e Blueler. Apesar disso, muitas coisas pelas quais passamos foram simples experiências humanas – experiências como perda e pesar e choque e medo e solidão. Um por um, nossos amigos, parentes e até mesmo a família nos deixaram. Um por um, os profissionais que cuidavam de nós saíram e ficou muito difícil confiar em alguém de novo. Um por um, nossos sonhos e esperanças foram esmagados. Parece que perdemos tudo. Nos sentimos abandonados no nosso inverno mais gelado.

As semanas, os meses, os anos começaram a passar por nós. Agora, a nossa idade não é marcada pelo tanto que conquistamos, mas pela dor entorpecida de falhas sucessivas. Nós tentamos e falhamos, e tentamos e falhamos, até doer demais para tentarmos de novo. Agora, quando saímos do hospital não se trata mais de se vamos voltar, mas, simplesmente, de quando retornaremos. Numa última tentativa desesperada de nos proteger, nós desistimos. Desistimos de melhorar. Desistir era a solução para nós, entorpecia a dor. Estávamos dispostos a sacrificar enormes partes nossas para dizer: “Eu não me importo”. Nossa personalidade continuou a atrofiar através dessa estratégia adaptativa de não se importar mais. Então, sentamos em cadeiras e fumamos e bebemos café, e fumamos mais um pouco. Era um preço alto para sobreviver. Nós simplesmente desistimos. E o inverno tornou-se uma longa e gelada angústia para nós.

Tenho certeza de que muitos de nós aqui, hoje, conhecem pessoas com desordens psiquiátricas que estão perdidas no longo e apático inverno que eu acabei de descrever. É um momento de escuridão e desespero. Como a rosa rugosa em janeiro e fevereiro, é um momento em que nada parece crescer a não ser a escuridão. É o momento de desistir, desistir é a solução. Desistir entorpece a dor, porque paramos de nos perguntar “por que e como nós continuaremos?”. Nesse período, até as tarefas mais simples são desgastantes. Aprendemos a ser desamparados, porque é mais seguro que se sentir completamente sem esperança.

O inverno de angústia e atrofia do senso do ser, que estou descrevendo, é um inferno não somente para aqueles que estão vivendo, mas, também, para aqueles que nos amam e se importam conosco: amigos, parentes e até profissionais. Eu descrevi como é estar na pele de quem está vivendo. Mas amigos, parentes e profissionais veem angústia e indiferença do lado de fora.

Do lado de fora, parece que a pessoa não está mais tentando. Muito frequentemente, pessoas que aparecem em asilos e em outros programas de reabilitação estão parcial ou totalmente imersas nesse desespero e angústia. Em dias bons, podemos aparecer nas áreas para atividades, mas isso é tudo. Nós sentamos no sofá, fumamos e bebemos café. Muitas vezes, nem nos incomodamos em ir para as atividades. De fora, devemos parecer mortos-vivos. Parecemos ser apáticos, sem graça, sem vida. Como profissionais, amigos e parentes, podemos pensar que essas pessoas estão cheias de desculpas, que parecem não tentar mais, que parecem ser consistentemente inconsistentes, e parece que a apatia é a única coisa que as motiva. Às vezes, essas pessoas parecem viajar em suas fantasias sobre como, magicamente, dar uma virada em suas vidas. Mas isso nos parecia ser somente fantasia, um refúgio momentâneo do tédio crônico. Quando a fantasia colapsa, como um balão que estoura, nada muda, porque nenhuma ação real foi realizada. A apatia retorna e o ciclo de angústia continua.

A equipe, a família e os amigos têm fortes reações para com as pessoas perdidas no inverno da angústia e apatia. De fora, pode parecer difícil de acreditar que realmente há uma pessoa lá. Frente a frente com uma pessoa que não parece se importar, nós poderíamos estar prontos para a pergunta que Oliver Sacks (1970, pg. 113) levantou: “Você acha que William tem alma? Ou ele foi morto, esvaziado, desalmado, pela doença?”. Eu pergunto para cada um de nós hoje. Uma pessoa pode ser tornar uma doença? A esquizofrenia pode matar ou esvaziar tanto uma pessoa que não sobra mais nada além da doença? Cada um de nós deve se desafiar a responder a essas perguntas para si próprio. As apostas são muito altas para essas respostas. Nossa própria personalidade, nossa própria humanidade, está em questão na resposta a essa pergunta. Vou explicar: sentada no salão comunitário, deitada numa cortina de fumaça de cigarro, a profunda apatia e indiferença que podemos encontrar em outra pessoa desafiarão as nossas próprias humanidade e capacidade de ser compassivo. Nós até nos questionamos se realmente há uma pessoa ali. Em tal encontro, Martin Buber (1958) teria nos instruído que a relação Eu-Tu é desafiadora. Se nós nos relacionamos com uma pessoa como se ela fosse uma doença, então entramos em uma relação Eu-Isso. O relacionamento Eu-Isso diminui a nossa própria humanidade. É claro que o grande trabalho que encontramos é manter a santidade da pessoa como Tu, mesmo quando as pessoas podem estar perdidas nelas mesmas. Isso é um grande ato de compaixão: manter a personalidade das pessoas mesmo quando elas estão perdidas nelas mesmas. Isso aprofunda a nossa humanidade ou, parafraseando Martin Buber, Eu me torno Eu salvando Você (p.11). Entretanto, quando estamos face a face com uma pessoa perdida na angústia e na apatia, há mais respostas comuns do que encontrar uma maneira de estabelecer um relacionamento Eu-Tu. Uma resposta frequente é o que eu chamo de “resposta salvadora exaltada”. Nós já nos sentimos assim uma vez ou outra no nosso trabalho. A resposta salvadora exaltada funciona assim: quanto mais você é indiferente e apático, nós nos tornamos mais arduamente ativos.

Quanto mais eles se isolam, mais intrometidos nos tornamos. Quanto menos vontade eles têm, mais obstinados ficamos. Quanto mais eles desistem, mais tentamos. Quanto mais desesperançados eles se tornam, mais cedemos a um otimismo raso. Quanto mais eles desistem dos tratamentos, mais planos fazemos para eles. Não é necessário dizer que logo nos encontramos desgastados e exaustos. Então, a nossa raiva se instala.

Nossa raiva se instala quando nossas melhores expectativas foram completamente frustradas pela pessoa perdida na angústia e apatia. Nos sentimos usados e completamente inúteis. Nós estamos com raiva. Nosso papel de cuidadores de pessoas é realmente posto em teste pelas pessoas perdidas no inverno da angústia e da indiferença. Nesse momento, não é incomum, para a maioria de nós, começar a culpar a pessoa com problema psiquiátrico. Dizemos coisas como: “Eles são preguiçosos. Eles não têm jeito. Eles não estão doentes, só estão manipulando. Eles são crônicos. Eles precisam sofrer as consequências naturais das ações deles. Eles gostam de viver desse jeito. Eles não estão zangados, eles são maus. O problema não está na ajuda que estamos oferecendo, o problema é que eles não querem ser ajudados. Eles não querem ajuda. Eles deveriam ser tirados desse programa, para que pegassem ‘no tranco’. Então, eles, finalmente, acordariam e aceitariam a dádiva que estamos oferecendo”.

Durante esse período de raiva e de colocar a culpa em alguém, algo muito interessante acontece: começamos a nos comportar, exatamente, como a pessoa que estamos tentando tanto salvar. A essa altura, a equipe, simplesmente, desiste. Entramos em nosso desespero e em nossa angústia. Nossa própria personalidade começa a atrofiar. Nós também desistimos. Nós também paramos de tentar. Dói muito ficar tentando ajudar uma pessoa que não quer ser ajudada. Dói demais ficar tentando ajudar e falhar. Dói demais se importar com eles, quando eles não se importam com eles mesmos. A esta altura nós desmoronamos em nosso próprio inverno de angústia, e a indiferença se instala em nosso coração.

Não somos melhores em viver no desespero do que as pessoas com doenças psiquiátricas. Não podemos tolerar isso, então nós também desistimos. Alguns de nós simplesmente desistimos largando o emprego. Nós raciocinamos que os computadores de última geração fazem o que é pedido e, ainda por cima, o resultado é melhor. Outros de nós decidimos não largar o emprego, em compensação, ficamos insensíveis e com os corações duros. Tratamos nossos empregos como o cara da Dunkin Donuts no comercial: “Está na hora de fazer os donuts, está na hora de fazer os donuts”. Ainda há aqueles de nós que nos tornamos muito cínicos. Nós levamos o trabalho como se fôssemos pedaços de madeira morta boiando no mar, vendo administradores indo e vindo como o tempo; nos satisfazendo ao ver que mais uma iniciativa a favor da saúde mental foi por água abaixo, e não fazendo nada para ajudar o sistema de uma maneira construtiva.

Tudo isso são modos de desistir. Em todos esses modos, vivemos o nosso próprio desespero.

Além disso, programas inteiros, sistemas de prestação de serviços e modelos de tratamentos também podem ser aprisionados pelo desespero e pela angústia. Esses sistemas começam a se comportar da mesma forma que as pessoas com problemas mentais que perderam a esperança. Um sistema que perdeu a esperança passa mais tempo excluindo pessoas do seu programa do que as convidando a ser participantes. Os critérios de aceitação se tornam rígidos e inflexíveis. Se você ler as entrelinhas dos critérios de aceitação desses programas, a declaração básica é: se você estiver com problemas, volte quando eles estiverem resolvidos, que nós ficaremos felizes em ajudá-lo. Os sistemas de serviços que desistiram de ter esperança tentam aguentar o desespero e a falta de esperança distanciando as pessoas que eles supostamente deveriam ajudar. Escute a linguagem que usamos: nesses sistemas de saúde mental temos “os guardiões”, que “protegem” e “entretêm” os usuários. Na verdade, usamos um linguajar de guerra em nosso trabalho. Por exemplo, falamos em enviar uma “linha de frente” para o “campo” para desenvolver “estratégias” de tratamento para a “população-alvo”.

Há outra alternativa? Nós devemos responder à angústia e à apatia das pessoas com doenças mentais com a nossa própria angústia e apatia? Eu acho que existe uma alternativa. A alternativa para o desespero é a esperança. A alternativa para a apatia é o cuidado. Criar um ambiente cheio de esperança e cuidado que incentive e convide ao crescimento e à recuperação é a alternativa.

Você se lembra da rosa rugosa? Durante o frio do inverno, quando o mundo inteiro estava congelado e não havia sinal de primavera, aquela semente ficou esperando na escuridão. Ela só esperou. Ela esperou a terra descongelar. Ela esperou a chuva vir. Enquanto a terra estava coberta pelo gelo, aquela rosa rugosa não podia começar a crescer. O ambiente que cercava aquela rosa rugosa teve que se transformar antes que aquela nova vida pudesse surgir e se transformar em um novo ser. 

Pessoas com doenças mentais estão esperando como aquela rosa rugosa esperou. Estamos esperando o nosso ambiente mudar para que a pessoa que está em nós possa surgir e crescer.

Aqueles de nós que desistimos não seremos abandonados como “casos perdidos”. A verdade é que, em algum momento, cada pessoa que foi diagnosticada com doença mental passa por esse período de angústia e apatia, mesmo que por um breve período. Lembrar-se daquela desistência é a solução. Desistir é uma maneira de sobreviver em ambientes desolados, opressivos e que falham na tentativa de nos acolher e apoiar. A tarefa que encontramos é passar da sobrevivência para a recuperação. Mas, para isso ocorrer, o ambiente em que passamos o tempo precisa mudar. Eu uso a palavra “ambiente” para incluir não só o aspecto físico do ambiente, mas, também, a interação humana que chamamos de relacionamento.

Dessa perspectiva, em vez de nos enxergar como desmotivados, apáticos e casos sem esperança, podemos ser entendidos como pessoas que estão à espera. Nós nunca temos certeza, mas, talvez, só talvez, haja uma nova vida dentro da pessoa só esperando para criar raízes, caso uma terra segura e cultivada seja fornecida. Essa é a alternativa ao desespero. Essa é a postura da esperança. Marie Balter expressou essa esperança quando perguntaram: “Você acha que todo mundo pode melhorar?”. Ela respondeu: “Não cabe a nós decidir se eles podem ou não melhorar”. Só deem a todos a oportunidade de melhorarem e deixem-nos ir em seu próprio ritmo. E temos de ser positivos – apoiando o desejo deles de viver melhor, e nem sempre insistindo na produtividade deles como medidas de sucesso (Balter 1987, p.153).

Então, não é nosso trabalho julgar quem pode e quem não pode se recuperar da doença mental e das consequências como a pobreza, o estigma, a desumanização, a degradação e o desamparo aprendido. Em vez disso, o nosso trabalho é participar da conspiração da esperança. É nosso trabalho formar uma comunidade de esperança que envolva pessoas com deficiências psiquiátricas. É nosso trabalho criar ambientes reabilitadores, que tenham várias oportunidades para o crescimento individual. É nosso trabalho incentivar nossa equipe em sua vocação especial em ter esperança. É nosso trabalho perguntar às pessoas com deficiências psiquiátricas o que elas querem e precisam para crescer e, então, dar a elas uma terra boa em que uma nova vida possa garantir suas raízes e crescer. E, por fim, é nosso trabalho esperar pacientemente, sentados, observando, admirados, e testemunhar, com reverência, o desabrochar da vida de uma outra pessoa.

Parece bom, mas como fazer isso? Eu tenho algumas sugestões muito concretas sobre como entrar na conspiração da esperança e construir comunidades de esperança ao redor das pessoas que perderam a esperança.

Primeiro, devemos estar comprometidos a mudar o ambiente em que essas pessoas estão inseridas, para que elas cresçam. Nós devemos reconhecer que as modificações verdadeiras podem trazer um pouco de desconforto e, às vezes, eu me preocupo se nos daremos por satisfeitos com uma mudança superficial. Eu me preocupo com palavras novas e atraentes, como “programas de integração”, “autocapacitação”, “modelos de associações” e “parceria”. Parece-me que, durante décadas, inventamos todo tipo de palavras e nomes novos para chamarmos uns aos outros. Por exemplo, nos anos 1950, eram o médico e o paciente. Nos 1960, eram a equipe e os clientes. Nos 1970, eram os provedores e os consumidores. Nos anos 1980, eram a equipe e os membros. Agora, nos anos 1990, temos os associados e os planos de saúde. Sim, os nomes pelos quais nos referimos a nós mesmos mudaram.  Mas eu argumentaria que a base do relacionamento entre aqueles tachados como doentes mentais e aqueles que não o são continua a mesma. Há um velho e sábio monge que vive na comunidade de Nova Nada, em Kemptville, Nova Escócia, seu nome é Padre William MacNamara. Sobre as tentativas de mudança, ele diz: “É como se ficássemos rearranjando as cadeiras no deck do Titanic, mas tudo que alcançamos com esse esforço é uma visão melhor durante o naufrágio”. Esse é o grande perigo de simplesmente usarmos as designações novas e a linguagem politicamente correta. Se não tomarmos cuidado, tudo isso se tornará um rearranjo de cadeiras num deck de um navio que está afundando. Alguém tem que falar: “Pare! Espere! Esqueça as palavras atraentes. Há um grande buraco nesse bote que chamamos de sistema de saúde mental e nós estamos afundando com ele!”.

Sabe, eu vou argumentar até que a base do relacionamento entre as pessoas que foram tachadas psiquiatricamente e aquelas que não o foram mude, até que o desequilíbrio radical de poder seja, ao menos, equalizado, até que os nossos relacionamentos sejam marcados pela reciprocidade, até que paremos com práticas bárbaras como contenção e isolamento, enquanto tentamos convencer as pessoas de que tais torturas são para o próprio bem delas, e até que reconheçamos o ponto em comum de nossa humanidade compartilhada e detenhamos os efeitos da destruição do espírito na desumanização do sistema de saúde mental, até lá aquele buraco continuará afundando os nossos melhores esforços.

O ambiente de interação humana dos programas de saúde mental e a comunidade precisam mudar se as pessoas querem passar de sobreviventes para a jornada de recuperação. Nós temos que parar de exercitar o “poder” sobre as pessoas com as quais trabalhamos. Isso só produz dependência desnecessária e desamparo. Em vez disso, nós devemos nos juntar a pessoas como o Dr. Jean Baker Miller (1976) e outros estudiosos do Stone Center, na Faculdade Wellesley. Seguindo o exemplo deles, devemos começar a pensar em termos de “dividir o poder com” ou “criar poder juntos”, e não ter “poder e controle sobre” as pessoas com as quais trabalhamos. Nesse sentido, relações de poder tradicionais que, historicamente, têm sido tão opressivas em relação às pessoas com deficiências psiquiátricas, mudarão. Isso significa, especificamente, que nós devemos parar de usar a frase: “Eu suponho que isso seja do interesse do cliente” e, em vez disso, perguntar para as pessoas o que elas querem das suas próprias vidas e fornecer a elas a capacitação e o apoio para que alcancem o que querem.

Nós devemos nos comprometer em acabar com as barreiras ambientais que bloqueiam os esforços das pessoas que estão em direção à recuperação e que nos deixam só tentando sobreviver. Por exemplo, eu sugeriria analisar as seguintes questões:

1. As pessoas com as quais trabalhamos estão tomando uma dose maior de remédios do que devem? Muitas vezes, a apatia, a falta de motivação e a indiferença que observamos são efeitos dos neurolépticos. Nós estamos ensinando os consumidores/sobreviventes sobre os efeitos dessas drogas e, ajudando-os, estaremos agindo a favor da mudança e/ou redução desses medicamentos? As indústrias farmacêuticas estão, literalmente, fazendo uma fortuna com a venda desses remédios. A nossa prioridade não é aumentar a margem de lucro do trimestre deles. A nossa prioridade é dar apoio a pessoas em processo de recuperação. Não é possível participar ativamente do nosso processo de recuperação quando os nossos remédios induzem ao Parkinsonismo, à apatia e à indiferença.

2. Os consumidores/sobreviventes das comunidades e dos programas dos hospitais avaliam o desempenho do trabalho da equipe? Quem poderia avaliar melhor se uma pessoa da equipe é eficiente senão quem é cuidado por aquela pessoa? No mais, estamos fornecendo aos ex-pacientes treinamento e apoio necessários para que eles possam conduzir avaliações?

3. Os participantes dos programas e os pacientes dos hospitais estão recebendo treinamentos verdadeiros sobre como participar e como, efetivamente, conseguir o que querem da equipe de tratamento? Temos permissão para acompanhar o planejamento do tratamento completo, e a equipe está empenhada em falar tudo claramente para que possamos entender a conversa? Há nobres defensores dispostos a nos encontrar nas reuniões de planejamento do tratamento? Existe a possibilidade de encontrar, previamente, a equipe para pensar em uma estratégia sobre como queremos sair das reuniões e como apresentar as nossas ideias? Há um tempo para simularmos o nosso discurso e lidarmos com as questões antes da nossa reunião para o planejamento do nosso tratamento?

4. Há toaletes ou refeitórios separados para a equipe e para os participantes do programa? Se houver, eles devem ser eliminados. Isso se chama segregação e cria cidadãos de segunda categoria.

5. Quem pode usar os telefones? Quem toma as decisões? Quem manda, de verdade, nesse programa? Informação é poder, e ter acesso à informação é fortalecer-se. Quais são as barreiras para conseguir informações nesse programa?

6. Nós compreendemos que as pessoas com deficiência psiquiátrica possuem conhecimento e experiência valiosos como resultado da experiência deles? Incentivamos essa importante fonte humana? Há grupos de ajuda mútua? Procuramos, ativamente, contratar pessoas com deficiências psiquiátricas e fornecer o suporte e a acomodação que eles possam solicitar?

7. Nós criamos um ambiente em que é possível para as pessoas da equipe ser seres humanos com coração? Oferecemos supervisão ou vigilância da equipe? Talvez ajudaríamos a criar um ambiente de trabalho mais humano se procurássemos enxergar as pessoas com as quais trabalhamos como uma jornada em que ambas movemos e somos movidas pelas pessoas que procuramos ajudar. Talvez pudéssemos oferecer aos nossos colegas de trabalho o que Janier Vanier (1988) chamou de “acompanhamento”.

Acompanhamento significa se oferecer para caminhar com a nossa equipe, quando eles fazem uma dolorosa, às vezes alegre, viagem direto ao coração, que nós chamamos de “relacionamento de atenção dedicada”. Atenção dedicada. Ah! Isso é uma verdadeira mudança.

8. Nós trabalhamos em um sistema que recompensa a passividade, a obediência e a conformidade? A conformidade é vista como um resultado desejável? Como uma amiga, que é ex-paciente, me disse: “Fale para esses coordenadores de assistência social que eles entenderam tudo errado. Fale para eles pararem de dizer que conformidade é o caminho para a independência”. E, de fato, conformidade não é o caminho para a independência. Aprender a se tornar seguro de si é um indicativo de ambientes que apoiam oportunidades para a recuperação e a capacitação.

9. Nós aceitamos o conceito do “risco de dignidade” e do “direito de falhar”? As “Pessoas Cronicamente Normais” (PCN), ou seja, as pessoas que não foram rotuladas psiquiatricamente, podem se fazer de estúpidas, podem tomar decisões sem pensar o tempo todo durante toda a vida delas. Meu exemplo favorito é a Elizabeth Taylor, que se divorciou oito vezes. Nós podemos dizer: “Ela não pensa! Ela não aprende com a experiência passada!”. Entretanto, quando ela embarcar no nono casamento, nem a SWAT, nem o time de enfermeiros com a injeção de Prolixin vão dizer que é para o bem-estar dela. Mas imagine só se uma pessoa com deficiência psiquiátrica disser para a equipe que a trata que ela irá se casar pela nona vez! As pessoas aprendem, e, às vezes, não aprendem com os erros delas. Nós devemos ter cuidado ao distinguir uma pessoa que se faz de estúpida (da nossa perspectiva) ou por razões próprias, e uma pessoa que está em risco de verdade.

10. Há oportunidades dentro do sistema de saúde mental para as pessoas que realmente precisam melhorar suas vidas? Há várias casas acessíveis nas quais a pessoa pode escolher viver? Existe trabalho disponível? Uma pessoa que voltou ao trabalho após muitos anos de hospitalização disse para mim: “Por que falam tanto em capacitação? Eu posso te dar uma definição de capacitação: ‘É um salário decente no fim do mês’”.

Essas são só algumas sugestões de como se criar um ambiente em que é possível as pessoas crescerem. Então, enquanto criamos esses ambientes cheios de esperança, devemos reconhecer que pessoas com deficiência psiquiátrica não “entram em recuperação” da mesma forma que carros ficam “tunados” (Deegan 1988). Não somos objetos passivos em que os profissionais são responsáveis por nos “reabilitar”. Muitos de nós acham a conotação da palavra “reabilitação” opressiva. Não somos objetos para sermos manipulados. Mais precisamente, somos totalmente humanos que podem agir, e que, agindo, podemos mudar uma situação.

Não somos objetos para sermos consertados, tal conotação rouba o nosso senso de autonomia e autodeterminação. Coloca responsabilidade em lugares errados. Perpetua o mito de que nós não somos e não podemos ser responsáveis por nossas vidas, decisões e escolhas.

A verdade é que ninguém tem o poder de reabilitar outra vida. É bem claro que podemos ter a melhor e mais avançada tecnologia em reabilitação e programas disponíveis para pessoas com deficiências e, mesmo assim, fracassar em ajudá-las. Como diz o ditado: “Você pode levar o cavalo até a água, mas não pode fazê-lo beber a água”. É necessário algo além da prestação de bons serviços. Esse “algo mais” é o que eu chamo de recuperação.

O conceito de recuperação difere do de reabilitação na proporção em que enfatiza que as pessoas são responsáveis por suas próprias vidas, e que nós podemos nos posicionar frente à nossa deficiência e ao que nos aflige. Não precisamos ser vítimas passivas. Podemos nos tornar agentes responsáveis em nosso processo de recuperação. Por isso é tão perigoso reduzir a pessoa a uma doença. Se insistirmos para uma pessoa aprender a falar: “Eu sou um esquizofrênico”, então, em essência, estamos insistindo para que a pessoa se iguale à doença. Através dessa redução desumana, a doença chega no “status” em termos de identidade. Assim, quando uma pessoa aprende a acreditar no “Eu sou um esquizofrênico”, quando a identidade dela se torna sinônimo da doença, não há ninguém dentro dela para começar o enorme trabalho de recuperação. Por isso, nós devemos sempre ajudar as pessoas a usar a primeira pessoa, por exemplo: “eu sou uma pessoa rotulada com esquizofrenia”; “eu sou uma pessoa diagnosticada com doença mental”, etc. Usar a primeira pessoa sempre nos lembra que, em primeiro lugar, nós somos seres humanos que podemos nos posicionar em direção ao que está nos afligindo.

A jornada de recuperação de cada pessoa é única. Na verdade, cada um de nós precisa descobrir em si mesmo o que promove e o que não promove a nossa recuperação. Muitos de nós descobrimos que tratamentos intermitentes ou em curso são uma parte importante em nosso processo de recuperação. Entretanto, quando estamos em recuperação, aprendemos a usar o tratamento como uma ferramenta, entre outras, igualmente importante. Assim, aprendemos a usar a medicação, em vez de só tomar a medicação. Aprendemos a usar o hospital, em vez de simplesmente ir ao hospital. Essa postura é a marca do processo de recuperação.

Para alguns de nós que têm o histórico de uso ou abuso de drogas e álcool, ou que cresceram em famílias de alcoólatras, ou que sobreviveram a abusos sexuais, emocionais e/ou físicos desde crianças, participar de vários programas de autoajuda ou de doze passos pode ser vital para o processo de recuperação.

Muitos de nós achamos que a parte social e de reabilitação que os programas oferecem são oportunidades únicas e usamos esses serviços como uma parte do nosso processo de recuperação. Muitos de nós achamos que a amizade baseada em amor e respeito mútuo é muito importante para a nossa recuperação. É claro que uma casa permanente, acessível e inteira é fundamental para o processo de recuperação.  Muitos de nós achamos que participar de uma comunidade espiritual de nossa escolha nos dá força e esperança para continuar trabalhando duro em nosso processo de recuperação.

Por fim, muitos de nós achamos importante participar das redes de apoio para ex-pacientes e defender grupos para mudar o sistema de saúde mental, para estabelecer alternativas para serviços tradicionais, para conscientizar o governo sobre as nossas necessidades, para lutar pelos nossos direitos e para, todos juntos, lutarmos por justiça social.

Na verdade, eu uso o termo “recuperação” para me referir não apenas ao processo de recuperação dos doentes mentais, mas também à recuperação dos efeitos da pobreza, dos cidadãos de segunda categoria, dos estigmas internalizados, do abuso e trauma mantidos pelos “cuidadores”, e dos efeitos da destruição do espírito provocado pelo sistema de saúde mental. Na realidade, ajudar a si mesmo e ajudar a ação social não podem ser, arbitrariamente, ações separadas. Em algum momento, ajudar a nós mesmos inclui nos juntar como um grupo para lutar contra as injustiças que nos rebaixam e nos mantêm como cidadãos de segunda categoria.

Recuperação não se refere a um objetivo ou a um resultado. Não significa que alguém foi curado. Na verdade, a recuperação é notável pela aceitação profunda de nossas limitações. Mas agora, em vez de ser um momento de desespero, achamos que as nossas próprias limitações são o chão do qual se abrirão possibilidades ímpares para nós. Esse é o paradoxo da recuperação: aceitando o que não podemos fazer ou ser, começamos a descobrir quem  podemos ser e o que podemos fazer. Deste modo, a recuperação é um processo. É uma maneira de viver a vida. É uma atitude e uma maneira de lidar com os desafios do dia a dia. Não é um processo perfeitamente linear. Como a rosa rugosa, a recuperação tem o seu tempo, tem o tempo de se crescer para baixo, para a escuridão, para assegurar novas raízes, e há períodos de irromper para avançar em direção à luz do sol. Mas, acima de tudo, a recuperação é um processo lento e intencional que acontece ao mexermos um grão de areia de cada vez.

Como a rosa rugosa nos ensina, crescer é lento e difícil, mas o resultado é lindo e maravilhoso. Nós escolhemos um trabalho muito difícil. Às vezes, acho que somos um pouco estranhos por escolher esse tipo de trabalho. Quero dizer, os computadores não pedem para que cresçamos, e o resultado é melhor. Mas nós continuamos nesse trabalho e temos fé nele. Por quê? Porque somos parte da conspiração da esperança e vemos nos rostos das pessoas com deficiência psiquiátrica uma vida que está só esperando um bom solo para poder crescer.  Nós nos comprometemos a criar um bom solo. E, então, eu celebro você. Eu celebro o espírito forte e impetuosamente obstinado das pessoas com deficiência psiquiátrica. Eu celebro a pessoa que existe dentro de nós. Eu celebro a esperança. Eu celebro a nossa conspiração. E acho que todos nós merecemos uma salva de palmas. Obrigada!

Referências:

Balter, M. & Katz, R. (1987). Sing no sad songs: The Marie Balter Story. The Balter Institute, Ipswich MA.

Buber, M. (1958). I and Thou (Trans. By Ronald Gregor Smith). New York: Charles Scribner’s Sons.

Deegan, P. (1992). The Independent Living Movement and people with psychiatric disabilities: Taking back control over our own lives. Psychosocial Rehabilitation Journal. 15, 3-19.

Deegan, P. (1990). Spirit breaking: When the helping professions hurt. The Humanistic Psychologist 18 (3), 301-313.

Deegan, P. (1988). Recovery: The lived experience of rehabilitation. Psychosocial Rehabilitation Journal XI (4), 11 – 19.

Miller, J.B. (1976). Toward a new psychology of women, Boston: Beacon Press.

Sacks, O. (1970). The man who mistook his wife for a hat and other clinical tales. New York, Harper & Row

Vanier, J. (1988). The broken body: Journey to wholeness. New York: Paulist Press.

Copyright © 1987 Patricia E. Deegan PhD

Texto traduzido por iakemi e revisado por Aline Naomi Sassaki

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